quinta-feira, 25 de janeiro de 2024

Setor na Abin sob Bolsonaro utilizou software espião

Documentos em posse da Polícia Federal (PF) na Operação Última Milha indicam que servidores da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) lotados no Centro de Inteligência Nacional (CIN) utilizaram o software espião FirstMile durante o governo Jair Bolsonaro (PL). O CIN teve origem em decreto do então presidente, assinado em julho de 2020, que criou novas estruturas dentro do organograma da Abin, à época chefiada por Alexandre Ramagem, atual deputado federal e pré-candidato do PL à Prefeitura do Rio de Janeiro.

Ramagem nega irregularidades e afirmou, por meio da assessoria, que o “departamento de operações, composto exclusivamente de servidores de carreira da Abin, era o único responsável pela gestão, senhas e execução do sistema”. A justificativa para criação do CIN foi planejar e executar “atividades de inteligência” destinadas “ao enfrentamento de ameaças à segurança e à estabilidade do Estado” e assessorar órgãos competentes sobre “atividades e políticas de segurança pública e à identificação de ameaças decorrentes de atividades criminosa”.
Foram colocados em cargos de chefia na nova estrutura servidores da Agência e policiais federais próximos à Ramagem e da família Bolsonaro, o que fez com que o CIN fosse apelidado de Abin paralela. O centro foi desmontado pela reestruturação promovida pela atual direção da Agência, já no governo Lula (PT), após a operação da PF que mirou o software espião.

O FirstMile foi utilizado de 2019 a 2021, após ser adquirido e ficar “hospedado” em computadores da Diretoria de Operações de Inteligência, mas depoimentos de servidores e documentos de apurações internas da Abin mostram o uso por solicitação de pessoas ligadas ao CIN. Sobre um servidor alvo de busca pela PF, a decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes, que autorizou a operação, afirma que ele era “o responsável pela fiscalização contratual do sistema FirstMile e, mesmo transferido de setor, continuou a realizar consultas pelo Centro de Inteligência Nacional”.
Além disso, “o servidor, ainda, tinha plena ciência da característica intrusiva da ferramenta que questionou, na condição de fiscal do contrato, o fato de a empresa fornecedora ter perdido a eficácia em relação a operadora Tim”, diz a decisão. Uma troca de e-mails entre oficiais da Abin e funcionários da empresa vendedora do FirstMile é utilizada pela PF como prova de que a ferramenta invadia a rede de telefonia nacional.

O uso pelo CIN, fora do setor onde o programa estava instalado, aparece ainda em outro trecho do inquérito da PF, em que os investigadores analisam processo administrativo disciplinar (PAD) da Abin contra dois servidores que denunciaram o uso do software espião para tentar escapar da demissão. “Destaca-se que a comissão de PAD identificou a utilização do sistema a pedido dos responsáveis pelo CIN”, cita a PF.
O uso da ferramenta na gestão Ramagem e o próprio delegado estão na mira da Polícia Federal. A suspeita é de que a Abin usou ilegalmente, durante o governo Bolsonaro, o FirstMile contra jornalistas, políticos e adversários do ex-presidente.
Os indícios colhidos pela PF levaram à deflagração, em outubro do ano passado, da Operação Última Milha. Foram cumpridos 25 mandados de busca e apreensão e dois de prisão preventiva em São Paulo (2), Santa Catarina (3), Paraná (2), Goiás (1) e Distrito Federal (17).
A Procuradoria-Geral da República (PGR), ao se manifestar favorável às buscas e prisões na investigação, cita a suspeita de que Ramagem se corrompeu para evitar a divulgação de informações sobre o uso irregular do software espião durante a gestão dele.

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